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Quem quer comprar uma empresa que só dá prejuízo?

Enquanto a “Grande Mídia” sobe o tom sobre os Correios, tubarões do setor esperam o aval do Governo para arrematar a empresa.

Publicado: 29 Julho, 2020 - 19h01 | Última modificação: 29 Julho, 2020 - 19h04

Escrito por: Toni Braga

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Nos últimos dias matérias jornalísticas que poderiam muito bem ser sinalizadas como “publieditorial” - aqueles feitos para vender um produto ou serviço - se esforçam para mostrar uma empresa decadente. Entregas atrasadas, imagens de filas quilométricas nas portas das unidades, entrevistas com reclamações dos usuários do serviço. Tudo isso seria justo ou poderia até ser chamado de jornalismo (afinal a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, a ECT, cumpre uma importante função social e deve responder aos cidadãos) não fosse o recusa velada de ouvir um outro lado. Não o lado da empresa, mas o dos trabalhadores que, pra ficar em exemplos simples, recebem o pior salário entre as estatais e não têm concurso desde 2011.

Os Correios, que já foram orgulho do Brasil, hoje são o maior alvo do lobby privatista. Com declarações públicas favoráveis à sua venda, ministros como Paulo Guedes, da Economia e até o próprio presidente Bolsonaro flertam constantemente com o descontentamento popular e a voracidade dos empresários de logística para entregar uma das maiores estruturas da América Latina. Mas por que os Correios geram tanto interesse se a maior justificativa do Governo são os prejuízos anotados nos últimos anos?

Ninguém sabe ao certo a situação financeira da empresa, uma verdadeira caixa-preta que curiosamente anuncia um lucro líquido de R$ 102 milhões em 2019, mas durante negociações salariais com seus quase 100 mil trabalhadores declara situações caóticas que prenunciam uma iminente falência. Fato é que, se a entrega de objetos postais - único monopólio que a empresa detém - vem caindo nos últimos anos devido, principalmente, às novas tecnologias, o setor já concorrencial de encomendas segue crescendo. Os primeiros números sobre o período da pandemia de Covid-19 que limitou a circulação de pessoas registram um aumento de cerca de 25% nas vendas pela Internet. Os grandes centros urbanos até podem ter mais opções de entrega, mas nos rincões do país são os Correios que continuam chegando.

Os concorrentes, aliás, chegam a cobrar até três vezes mais que a ECT e muitas vezes utilizam a estrutura da estatal para concluir suas entregas tamanha é a capilaridade dos Correios. Esta também é uma demonstração de quanto essas empresas privadas não pretendem se arriscar no interior de um país cuja dimensão continental resulta em mais de cinco mil municípios.

Dessa forma fica mais do que óbvio o interesse em adquirir uma empresa que, depreciada pela própria mídia nacional, pode entregar bem mais que cartas e carnês de IPTU. Ao impedir que os Correios sejam usados para servir ao povo, abre-se ainda mais caminhos para a consolidação do projeto bolsonarista de desmanche do Estado brasileiro.

Toni Braga é carteiro, militante sindical e atualmente exerce o primeiro mandato como presidente do SINTECT-ES