Nota de repúdio ao aumento do feminicídio
Publicado: 23 Março, 2026 - 16h28 | Última modificação: 23 Março, 2026 - 17h08
Escrito por: CUT ES
A CUT ES vem a público manifestar sua mais profunda indignação e repúdio diante do brutal feminicídio da comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa Mattos, assassinada a tiros na madrugada desta segunda-feira (23), dentro de sua própria casa, pelo namorado — um policial rodoviário federal.
Dayse, que dedicou sua trajetória profissional ao combate à violência contra as mulheres e foi a primeira mulher a comandar a Guarda Municipal de Vitória, foi morta com cinco tiros na cabeça enquanto dormia. O autor dos disparos, Diego Oliveira de Souza, não aceitava o fim do relacionamento e apresentava comportamento ciumento, possessivo e controlador. Após executar Dayse, ele tirou a própria vida .
Feminicídio em alta no Brasil
O assassinato de Dayse não é um caso isolado. Ele escancara a realidade brutal que mulheres brasileiras enfrentam todos os dias.
O Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios da última década: 1.568 mulheres assassinadas em razão de sua condição de gênero, um aumento de 4,7% em relação a 2024. A média é de quatro mulheres mortas por dia no país. Entre 2015 e 2025, mais de 13 mil mulheres foram assassinadas no Brasil em crimes de feminicídio.
Os dados do Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL) apontam uma realidade ainda mais cruel: em 2025, foram 2.149 assassinatos e 4.755 tentativas de feminicídio, totalizando quase seis mulheres mortas por dia no país — uma média de 5,89 vítimas diárias.
Os números revelam também o perfil dessa violência:
- 75% dos feminicídios ocorrem no âmbito íntimo, cometidos por companheiros, ex-companheiros ou pessoas com quem a vítima tem filhos.
- 38% das mulheres foram mortas na própria casa.
- Ao menos 22% das vítimas já haviam realizado denúncias contra os agressores antes do feminicídio.
- 1.653 crianças foram deixadas órfãs pela ação dos criminosos.
- 101 vítimas estavam grávidas no momento da violência.
O paradoxo capixaba
O Espírito Santo alcançou, em 2025, uma redução histórica nos homicídios, com 796 assassinatos — o menor número desde 1996. Especificamente em relação às mulheres, o estado registrou 75 homicídios femininos, o menor número da série histórica, e uma queda de 15,4% nos casos de feminicídio, com 33 ocorrências.
Vitória vinha de um período de mais de 650 dias — 1 ano e 9 meses — sem registro de feminicídio. O último caso havia ocorrido em 8 de junho de 2024.
O prefeito Lorenzo Pazolini atribuiu esse resultado às políticas públicas de enfrentamento à violência doméstica, muitas delas coordenadas pela própria comandante Dayse Barbosa. Inclusive, quando a capital atingiu a marca dos 600 dias sem feminicídio, foi Dayse quem atuou como porta-voz, afirmando: "A Guarda Municipal faz esse trabalho nas praças, escolas, EJAs, para que a mulher possa se ver na situação, se identificar como uma vítima passando pela violência e pedir ajuda".
É cruel que quem coordenava as políticas de proteção às mulheres se tornou vítima da mesma violência que combatia. O caso de Dayse expõe uma verdade ainda mais estarrecedora: nem mesmo as mulheres que dedicam suas vidas à segurança pública estão protegidas.
O machismo, a misoginia e uma sociedade voltada para valores masculinos contribuem para que os sinais de violência que precedem os feminicídios sejam ignorados. Casos como o de Dayse demonstram que, mesmo mulheres que lideram instituições de segurança, não estão imunes à violência de gênero.
A luta é urgente! Nós, da CUT ES, não aceitamos que mulheres continuem sendo vitimadas e silenciadas simplesmente por serem mulheres. Não aceitamos que as forças que deveriam nos proteger sejam as mesmas que nos matam.
Dayse Barbosa foi guerreira. Foi líder. Foi símbolo da luta contra a violência que vitima milhares de mulheres todos os dias. Sua trajetória à frente da Guarda Municipal de Vitória deixou um legado de respeito, força e compromisso com o serviço público.
Sua morte nos enche de revolta. Em sua memória, seguiremos firmes na defesa da vida das mulheres.
Nenhuma mulher a menos!